Manifesto 2018-03-28T18:38:49+00:00

Manifesto por um Mar de Lumes

Um homem na vila de Neguá, na costa da Colômbia, pôde subir ao céu. De regresso, contou. Disse que tinha contemplado, de lá na cima, a vida humana. E disse que somos um mar de pequenos lumes.

— O mundo é isso — revelou —. Um montão de gente, um mar de pequenos lumes.

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as demais. Não há dois lumes iguais. Há lumes grandes e lumes miúdos e lumes de todas as cores. Há gente de lume sereno, que nem se inteira do vento, e gente de lume louco, que enche o ar de faíscas. Alguns lumes, lumes bobos, nem alumiam nem queimam, mas outros prendem a vida com tanta gana que não é possível olhar para eles sem pestanejar, e quem se aproximar, acende-se.

— Eduardo Galeano (O mundo)

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1. Cada vez é mais difícil vermos com claridade no mundo, mesmo para quem mais teimamos em olhar, com muita atenção. Um ar tépido e negrusco chega dos depósitos de petróleo espoliados no Oriente Meio, dos barcos, aviões, estradas, caminhos de ferro pelos que os povos do mundo continuam a render tributo aos impérios. Os povos somos apenas peças rotas de um quebra-cabeças que manejam mãos alheias, num jogo com regras trampeadas e no que sempre ganham os mesmos. A guerra contra a humanidade é unha guerra contra a razão, que apaga pouco a pouco pequenos lumes em todo o mundo.

2. Pestanejar é acender os lumes. Unir as peças, reconstruir o puzzle. A solidariedade antes era uma mostra de generosidade; hoje é uma necessidade. Se ontem era um dever lutar contra a lógica imperial, hoje é uma questão de sobrevivência: local, nacional, regional, continental e mundial. Três campos fundamentais chamam a nosa atenção:

a) a constelação de movimentos sociais, revoluções, saltos e transformações que nos chegam da América Latina; a América de veias ensanguentadas que arrasaram os imperialismos hispano e português; a América que nos ensina lições a nós, invisíveis neste recanto da Europa, e que algum dia irá fazer frente ao vizinho abusador que tem a norte, que sempre se creu com direito a estender o seu pátio;

b) o mundo árabe e islâmico, espaço sulcado pelo colonialismo europeu durante anos, criminalizado pela imprensa ocidental e que deve exercer a sua própria voz e a sua resistência; todos os povos do mundo temos unha dívida pendente com os povos palestino e saariano, mas também com o iraquiano, o afegão, o líbio ou o sírio entre outros, agredidos com sanha por um imperialismo insaciável;

c) e finalmente essa outra Europa que nos furtam os meios de desinformação maciça; temos muitos nomes para a vestir lentamente a esta outra Europa tão desconhecida, para a encher de prendas humildes mas orgulhosas: a dos povos, a dos movimentos sociais, dos trabalhadores, da mocidade e das mulheres. Nomeadamente os novos povos que pretendem ser soberanos: a Irlanda, a Bretanha, os Países Catalães, a Córsega, a Ocitânia, Euskal Herria, e também o nosso, a Galiza.

3. Uma nação invisível também é uma nação imposível. Vivemos num pequeno país atlântico, de história, cultura e língua milenárias, que é invisível no mundo. Mas para chegar à ideia de invisibilidade há que reconhecer a existência do visível. Para falar da Galiza invisível há que pensar numa Galiza visível.

4. Pediram-nos madurez, resignação, conformismo ou rendição. Mas todo isso já o escutamos mutas vezes. Nós é que vamos falar de liberdade, de memoria e de futuro; vamos construir, no oceano da asfixia, uma pequena ilha de dignidade, uma minúscula Cuba de inconformistas.

5. Não vamos construir outra pirâmide. Construímos de baixo para a cima a democracia participativa que não se substitui por spots publicitários, pela tirania das marcas e o consumo.

Para avançar, em diagonal, en zigue-zague, mas sem intermitências. Colabora, contribui, aproxima-te deste pequeno Mar de Lumes. E que prenda o mundo!